Viagem - Ceclia Meireles

Viagem
Ceclia Meireles

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Nota do Editor
Viagem
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Nota do Editor

      maneira dos antigos copistas, esta edio  uma transcrio da primeira edio do livro que consagrou Ceclia Meireles como a grande poetisa da lngua
portuguesa.
     No se trata, note-se bem, de uma reproduo da edio original, que s seria possvel em papel, mas de uma mera transcrio, na qual se cuidou de
manter, na medida de nossos recursos e ateno, a grafia e apresentao da edio original.
     Os estudiosos da obra de Ceclia Meireles, tenho certeza, apreciaro esta publicao, que mantm, com as ressalvas acima, todas as grafias do original.
Alm de ajud-los em seus estudos comparativos,  uma prova testemunhal, acessvel a todos, de um dos motivos provveis do poema Errata.
     Os demais leitores talvez apreciem mais as edies posteriores, revisadas pela Autora, como o excelente e bem documentado Ceclia Meireles - Obra Potica,
volume nico, editado pela Aguilar.
     Laureado com o primeiro prmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras em 1938, publicado no ano seguinte em Lisboa pelas Edies Ocidente, com
impresso a cargo da Editorial Imprio que a finalizou em 24 de julho de 1939, a presente edio  rara no apenas por se tratar da transcrio da primeira
edio.
     At ontem, era um exemplar nico (em papel continua sendo) amarelecendo em minha estante, graas  ao do tempo: o mesmo tempo que torna a poesia
de C.M. cada vez melhor.
     Enriquecido com a colagem de uma foto de revista da poca, uma foto original, encimando autgrafo e precedendo ficha catalogrfica revista pela autora,
pelo trabalho de um amante de bons livros, o Coronel Zacarias Silva,  este o exemplar que, virtualmente, compartilho com o leitor.
     Esta edio  dedicada ao Coronel Zacarias Silva, a quem devo mais do que a preservao e o enriquecimento desta primeira edio de Viagem.
     No o conheci pessoalmente. Mas, pelos livros de sua biblioteca que meus parcos recursos permitiram resgatar em um antigo sebo que ficava do outro
lado da rua do prdio nmero 950 da Av. Brigadeiro Lus Antnio, em So Paulo, nos anos 60, gostaria de o ter conhecido.
     Todos primeiras edies, autografadas, bem conservadas, com cuidadosas fichas catalogrficas datilografadas revistas pelos autores e devidamente rubricadas
pelo Coronel.
     A venda de dois deles (primeiras edies autografadas de Jorge Amado e Graciliano Ramos, vendidas a Ricardo Ramos, graas aos bons ofcios de Lus
Ea) me ajudou a fazer frente s despesas com o parto de minha primeira filha.
     Por tudo isso, dedico esta edio  memria do Coronel Zacarias Silva, com meus agradecimentos.

     Importante: O leitor  convidado a ler a
nota de copyright
desta edio.
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A MEUS AMIGOS PORTUGUESES

EPIGRAMA N. I

POUSA sbre sses espetculos infatigveis
uma sonora ou silenciosa cano:
flor do esprito, desinteressada e efmera.

Por ela, os homens te conhecero:
por ela, os tempos versteis sabero
que o mundo ficou mais belo, ainda que intilmente,
quando por le andou teu corao.

MOTIVO

EU CANTO porque o instante existe
e a minha vida est completa.
No sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmo das coisas fugidias,
no sinto gzo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Si desmorono ou si edifico,
si permaneo ou me desfao,
 no sei, no sei. No sei si fico
ou passo.

Sei que canto. E a cano  tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
 mais nada.

NOITE

HUMIDO gsto de terra,
cheiro de pedra lavada
 tempo inseguro do tempo! 
sombra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.

Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,
 lbio da voz sem ventura! 
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.

A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,
 szinha, com o seu perfume! 
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados.

Bem que a vida estava quieta.
Mas passava o pensamento...
 de onde vinha aquela msica?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrlas e o vento.

ANUNCIAO

TOCA essa msica de sda, frouxa e trmula,
que apenas embala a noite e balana as estrlas noutro mar.

Do fundo da escurido nascem vagos navios de ouro,
com as mos de esquecidos corpos qusi desmanchados no vento.

E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a gua derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.

Toca essa msica de sda, entre areias e nuvens e espumas.

Os remos pararo no meio da onda, entre os os peixes suspensos:
e as cordas partidas andaro pelos ares danando -ta.

Cessar esta msica de sombra, que apenas indica valores de ar.
No haver mais nossa vida, talvez no haja nem o p que fomos.

E a memria de tudo desmanchar suas dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegaro.

DISCURSO

E AQUI estou, cantando.

Um poeta  sempre irmo do vento e da gua:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo cho os sinais do meu caminho
e no vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.

Tambm procurei no cu a indicao de uma trajectria,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operrios de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha algum gostar de mim?

EXCURSO

ESTOU vendo aquele caminho
cheiroso da madrugada:
pelos muros, escorriam
flores moles da orvalhada;
na cr do cu, muito fina,
via-se a noite acabada.

Estou sentindo aqueles passos
rente dos meus e do muro.

As palavras que escutava
eram pssaros no escuro...
Passros de voz to clara,
voz de desenho to puro!

Estou pensando na folhagem
que a chuva deixou polida:
nas pedras, ainda marcadas
de uma sombra humedecida.
Estou pensando o que pensava
nesse tempo a minha vida.

Estou diante daquela porta
que no sei mais se ainda existe...
Estou longe e fra das horas,
sem saber em que consiste
nem o que vai nem o que volta...
sem estar alegre nem triste,

sem desejar mais palavras
nem mais sonhos, nem mais vultos,
olhando dentro das almas,
os longos rumos ocultos,
os largos itinerrios
de fantasmas insepultos...

 itinerrios antigos,
que nem Deus nunca mais leva.
Silncio grande e szinho,
todo amassado com treva,
onde os nossos giram
quando o ar da morte se eleva.

RETRATO

EU NO tinha ste rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem stes olhos to vazios,
nem o lbio amargo.

Eu no tinha estas mos sem fra,
to paradas e frias e mortas;
eu no tinha ste corao
que nem se mostra.

Eu no dei por esta mudana,
to simples, to certa, to fcil:
 Em que esplho ficou perdida
a minha face?

MSICA

NOITE perdida,
No te lamento:
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
 rosa encarnada,
intacta, ao vento.

Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
(Asa da lua
qusi parada,

mostra-me a sua
sombra escondida,
que continua

a minha vida
num cho profundo!
 raz prendida

a um outro mundo.)
Rosa encarnada
do sonho isento,

muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento..
Minha partida,
minha chegada,

 tudo vento...

Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite encontrada...

EPIGRAMA N.o 2

S PRECRIA e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, no te demoras.
Fste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, s coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se v que as horas tdas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

SERENATA

REPARA na cano tardia
que tmidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.

O orvalho treme sbre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraa e leva.

Repara na cano tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.

 to triste, mas to perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do corao no peito.

Repara na cano tardia
que por sbre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.

E nessas letras to pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura

por eternidades serenas.

A LTIMA CANTIGA

NUM dia que no se adivinha,
meus olhos assim estaro:
e h de dizer-me: Era a expresso
que ela ltimamente tinha.

Sem que se mova a minha mo
nem se incline a minha cabea
nem a minha bca estremea,
 toda serei recordao.

Meus pensamentos sem tristeza
de novo se debruaro
entre o acabado corao
e o horizonte da lngua presa.

Tu, que foste a minha paixo,
virs a mim, pelo meu gsto,
e de muito alm do meu rosto
meus olhos te percorrero.

Nem por distante ou distrado
escapars  invocao
que, de amor e de mansido,
te eleva o meu sonho perdido.

Mas no vers tua existncia
nesse mundo sem sol nem cho,
por onde se derramaro
os mares da minha incoerncia.

Ainda que sendo tarde e em vo,
perguntarei por que motivo
tudo quanto eu quis de mais vivo
tinha por cima escrito: N  o.

E ondas seguidas de sadade,
sempre na tua direo,
caminharo, caminharo,
sem nenhuma finalidade.

CONVENINCIA

CONVM que o sonho tenha margens de nuvens rpidas
e os pssaros no se expliquem, e os velhos andem pelo sol,
e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticdio

Convm tudo isso, e muito mais, e muito mais...
E por sse motivo aqui vou, como os papis abertos
que caem das janelas dos sobrados, tontamente...

Depois das ruas, e dos trens, e dos navios,
encontrarei casualmente a sala que afinal buscava,
e o meu retrato, na parede, olhar para os olhos que levo.

E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria.
(Os grilos da infncia estaro cantando dentro da erva...)
E eu pensarei: Que bom! nem  preciso respirar!...

CANO

PUS o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
 depois, abri o mar com as mos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mos ainda esto molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cr que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da gua vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto fr preciso,
para fazer com que o mar cresa,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desaparea.

Depois, tudo estar perfeito:
praia lisa, guas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mos quebradas.

PERSPECTIVA

TUA passagem se fez por distncias antigas.
O silncio dos desertos pesava-lhe nas asas
e, juntamente com le, o volume das montanhas e do mar.

Tua velocidade desloca mundos e almas.
Por isso, quando passaste, cau sbre mim tua violncia
e desde ento alguma coisa se aboliu.

Guardo uma sensao de drama sombrio, com vozes de ondas lamentando-me.
E a multido das estrlas avermelhadas fugindo com o cu para longe de mim.

Os dias que veem so feitos de vento plcido e apagam tudo.
Dispensam a sombra dos gestos sobre os cenrios.
Levam dos lbios cada palavra que desponta.
Gastam o contrno da minha sntese.
Acumulam ausncia em minha vida...

Oh! um pouco de neve matando, docemente, flha a flha...

Mas a seiva l dentro continua, sufocada,
nutrindo de sonho a morte.

CANO

NUNCA eu tivera querido
dizer palavra to louca:
bateu-me o vento na bca,
e depois no teu ouvido.

Levou smente a palavra,
deixou ficar o sentido.

O sentido est guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca ningum viu ningum
que o amor pusesse to triste.
Essa tristeza no viste,
e eu sei que ela se v bem...
S si aquele mesmo vento
fechou teus olhos, tambm...

SOLIDO

IMENSAS noites de inverno,
com frias montanhas mudas,
e o mar negro, mais eterno,
mais terrvel, mais profundo.

Este rugido das guas
 uma tristeza sem forma:
sobe rochas, desce frguas,
vem para o mundo, e retorna...

E a nvoa desmancha os astros,
e o vento gira as areias:
nem pelo cho ficam rastros
nem, pelo silncio, estrlas.

A noite fecha seus lbios
 terra e cu  guardado nome.
E os seus longos sonhos sbios
geram a vida dos homens.

Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.

ACEITAO

 MAIS fcil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrlas
do que prend-lo  terra e alcanar o rumor dos teus passos.

 mais fcil, tambm, debruar os olhos no oceano
e assistir, l no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareas, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperana.

No me interessam mais nem as estrlas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha cano:
no tenho inveja s cigarras: tambm vou morrer de cantar.

EPIGRAMA N.o 3

MUTILADOS jardins e primaveras abolidas
abriram seus miraculosos ramos
no cristal em que pousa a minha mo.

(Prodigioso perfume!)

Recompuseram-se tempos, formas, cres, vidas...

Ah! mundo vegetal, ns, humanos, choramos
s da incerteza da ressureio.

MURMRIO

TRAZE-ME um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
 v que nem te peo alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no seu corao!
A alvura, apenas, dos ares:
 v que nem te peo iluso.

Traze-me um pouco da tua lembrana,
aroma perdido, sadade da flor!
 V que nem te digo  esperana!
 V que nem siquer sonho  amor!

CANO

NO DESEQUILBRIO dos mares,
as proas giraram szinhas...
Numa das naves que afundaram
 que tu certamente vinhas.

Eu te esperei todos os sculos,
sem desespro e sem desgsto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto.

Quando as ondas te carregaram,
meus olhos, entre guas e areias,
cegaram como os das esttuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mos pararam sbre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cr que tinham
e a lembrana do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e cau de mim:
e s talvez le ainda viva
dentro dessas guas sem fim.

GARGALHADA

HOMEM vulgar! Homem de corao mesquinho!
eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

No vs?
 preciso jogar por escadas de mrmore baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir esplhos, quebrar cristais,
vergar a lmina das espadas e despedaar esttuas,
destruir as lmpadas, abater cpolas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnfico  um trecho dessa msica desvairada.

Mas  preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
 e colares, e esplhos, e espadas e esttuas.
E as lmpadas. Deus do cu!
E os pandeiros geis e as liras sonoras e trmulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

S de trs lugares nasceu at hoje esta msica herica:
do cu que venta,
do mar que dana,
e de mim.

FIM

 TEMPOS de incerta esperana
que assim vos desacreditastes!
Cresceram nuvens sbre a lua
e o vento passou pelas hastes.

Vinde vr meu jardim sem flres
no presente nem no futuro,
e a mo das guas procurando
um rumo pelo solo escuro!

Vinde ouvir a histria da vida
no spro da noite deserta.
Caram as sombra das vozes
dentro da ltima estrla aberta.

Ai! tudo isto  letra do horscopo...
E s tu, Esttua, resistes!
 Mas, embora nunca te quebres,
ters sempre os olhos mais tristes.

CRIANA

CABECINHA boa de menino triste,
de menino triste que sofre szinho,
que szinho sofre,  e resiste.

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e no sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que no teve nada, que no pediu nada,
pelo mdo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sbre a gua do mundo
para mirar seu desencanto.

Para vr passar numa onda lenta e fria
a estrla perdida da felicidade
que soube que no possuiria.

DESAMPARO

DIGO-TE que podes ficar de olhos fechados sbre o meu peito,
porque uma ondulao maternal de onda eterna
te levar na exata direo do mundo humano.

Mas no equilbrio do silncio,
no tempo sem cr e sem nmero,
pergunta a mim mesmo o lbio do meu pensamento:

quem  que me leva a mim,
que peito nutre a durao desta presena,
que msica embala a minha msica que te embala,
a que oceano se prende e desprende
a onda da minha vida, em que ests como rosa ou barco...?

FIO

NO FIO da respirao,
rola a minha vida montona,
rola o pso do meu corao.

Tu no vs o jgo perdendo-se
como as palavras de uma cano.

Passas longe, entre nuvens rpidas,
com tantas estrlas na mo...

 para que serve o fio trmulo
em que rola o meu corao?

INVERNO

CHOVEU tanto sbre o teu peito
que as flores no podem estar vivas
e os passos perderam a fra
de buscar estradas antigas.

Em muita noite houve esperanas
abrindo as asas sbre as ondas.
Mas o vento era to terrvel!
Mas as guas eram to longas!

Pode ser que o sol se levante
sbre as tuas mos sem vontade
e encontres as coisas perdidas
na sombra em que as abandonaste.

Mas quem vir com as mos brilhantes
trazendo o seu beijo e o teu nome,
para que saibas que s tu mesmo,
e reconheas o teu sonho?

A primavera foi to clara
que se viram novas estrlas,
e soaram no cristal dos mares,
lbios azues de outras sereias.

Vieram, por ti, msicas lmpidas,
tranando sons de ouro e de sda.
Mas teus ouvidos noutro mundo
desalteravam sua sde.

Cresceram prados ondulantes
e o cu desenhou novos sonhos,
e houve muitas alegorias
navegando entre Deus e os homens.

Mas tu estavas de olhos fechados
prendendo o tempo em teu sorriso.
E em tua vida a primavera
no poude achar nenhum motivo...

EPIGRAMA N.o 4

O CHRO vem perto dos olhos
para que a dr transborde e caia.
O chro vem quasi chorando
como a onda que toca na praia.

Descem dos cus ordens augustas
e o mar chama a onda para o centro.
O chro foge sem vestgios,
mas levando nufragos dentro.

ORFANDADE

A MENINA de preto ficou morando atrs do tempo,
sentada no banco, debaixo da rvore,
recebendo todo o cu nos grandes olhos admirados.

Algum passou de manso, com grandes nuvens no vestido,
e parou diante dela, e ela, sem que ningum falasse,
murmurou: A MAME MORREU.

J ningum passa mais, e ela no fala mais, tambm.
O olhar cau dos seus olhos, e est no cho, com as outras pedras,
escutando na terra aquele dia que no dorme
com as trs palavras que ficaram por al.

ALVA

DEIXEI meus olhos szinhos
nos degraus da sua porta.
Minha bca anda cantando,
mas todo o mundo est vendo
que a minha vida est morta.

Seu rosto nasceu das ondas
e em sua bca h uma estrla.
Minha mo viveu mil vidas
para uma noite encontr-la
e noutra noite perd-la.

Caminhei tantos caminhos,
tanto tempo e no sabia
como era fcil a morte
pela seta do silncio
no sangue de uma alegria.

Seus olhos andam cobertos
de cres da primavera.
Pelos muros de seu peito,
durante inteis viglias,
desenhei meus sonhos de hera.

Desenho, apenas, do tempo,
cada dia mais profundo,
roteiro do pensamento,
sadade das esperanas
quando se acabar o mundo...

CANTIGUINHA

MEUS OLHOS eram mesmo gua,
 te juro 
mexendo um brilho vidrado,
verde-claro, verde-escuro.

Fiz barquinhos de brinquedo,
 te juro 
fui botando todos les
naquele rio to puro.

.....................

Veiu vindo a ventania,
 te juro 
as guas mudam seu brilho,
quando o tempo anda inseguro.

Quando as guas escurecem,
 te juro 
todos os barcos se perdem,
entre o passado e o futuro.

So dois rios os meus olhos,
 te juro 
noite e dia correm, correm,
mas no acho o que procuro.

TERRA

DEUSA dos olhos volveis
pousada na mo das ondas:
em teu colo de penumbras,
abri meus olhos atnitos.
Surgi do meio dos tmulos,
para aprender o meu nome.

Mamei teus peitos de pedra
constelados de prenncios.

Enredei-me por florestas,
entre cnticos e musgos.
Soltei meus olhos no elctrico
mar azul, cheio de msicas.

Desci na sombra das ruas,
como pelas tuas veias:
meu passo  a noite nos muros 
casas fechadas  palmeiras 
cheiro de chcaras hmidas 
sono da existncia efmera.

O vento das praias largas
mergulhou no teu perfume
a cinza das minhas mguas.
E tudo cau de sbito,
junto com o corpo dos nufragos,
para os invisveis mundos.

Vi tantos rstos ocultos
de tantas figuras plidas!
Por longas noites inmeras,
em minha assombrada cara
houve grandes rios mudos
como os desenhos dos mapas.

Tinhas os ps sobre flres,
e as mos prsas, de to puras.
Em vo, suspiros e fomes
cruzavam teus olhos mltiplos,
despedaando-se annimos,
diante da tua altitude.

Fui mudando minha angstia
numa fra herica de asa.
Para construir cada msculo,
houve universos de lgrimas.
Devo-te o modlo justo:
sonho, dor, vitria e graa.

No rio dos teus encantos,
banhei minhas amarguras.
Purifiquei meus enganos,
minhas paixes, minhas dvidas.
Despi-me do meu desnimo 
fui como ningum foi nunca.

Deusa dos olhos volveis,
rsto de esplho to frgil,
corao de tempo fundo,
 por dentro das tuas mscaras,
meus olhos, srios e lcidos,
viram a beleza amarga.

E sse foi o meu estudo
para o ofcio de ter alma;
para entender os soluos,
depois que a vida se cala.
 Quando o que era muito  nico
e, por ser nico,  tcito.

XTASE

DEIXA-TE estar embalado no mar noturno
onde se apaga e acende a salvao.

Deixa-te estar na exalao do sonho sem forma:
em redor do horizonte, vigiam meus braos abertos,
e por cima do cu esto pregados meus olhos, guardando-te.

Deixa-te balanar entre a vida e a morte, sem nenhuma sadade.
Deslisam os planetas, na abundncia do tempo que cai.
Ns somos um tnue plen dos mundos...

Deixa-te estar neste embalo de gua geando crculos.
Nem  preciso dormir, para a imaginao desmanchar-se em figuras ambguas.

Nem  preciso fazer nada, para se estar na alma de tudo.

Nem  preciso querer mais, que vem de ns um beijo eterno
e afoga a bca da vontade e os seus pedidos...

SOM

ALMA divina,
por onde me andas?
Noite szinha,
lgrimas, tantas!

Que spro imenso,
alma divina,
em esquecimento
desmancha a vida!

Deixa-me ainda
pensar que voltas,
alma divina,
coisa remota!

Tudo era tudo
quando eras minha,
e eu era tua,
alma divina!

GUITARRA

PUNHAL de prata j eras,
punhal de prata!
Nem fste tu que fizeste
a minha mo insensata.

Vi-te brilhar entre as pedras,
punhal de prata!
 no cabo, flores abertas,
no gume, a medida exata,

a exata, a medida certa,
punhal de prata,
para atravessar-me o peito
com uma letra e uma data.

A maior pena que eu tenho,
punhal de prata,
no  de me ver morrendo,
mas de saber quem me mata.

DISTNCIA

QUANDO o sol ia acabando
e as guas mal se moviam,
tudo que era meu chorava
da mesma melancolia.
Outras lgrimas nasceram
com o nascimento do dia:
s de noite esteve sco
meu rosto sem alegria.
(Talvez o sol que acabara
e as guas que se perdiam
transportassem minha sombra
para a sua companhia...)
Oh!
mas nem no sol nem nas guas
os teus olhos a veriam...
 que andam longe, irmos da lua,
muito clara e muito fria...

EPIGRAMA N.o 5

GOSTO de gota d'gua que se equilibra
na flha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar  lmpido e exato.

E a flha  um pequeno deserto
para a imensidade do acto.

CAMPO

CAMPO da minha sadade:
vai crescendo, vai subindo,
de tanto jazer sem nada.

Desvlo mudo e contnuo
que vai revestido os montes
e estendendo outros caminhos.

Mergulhada em suas frondes,
a tristeza  uma esperana
bebendo a vazia sombra.

guas que vo caminhando
dispersam nos mares fundos
mel de beijo e sal de pranto.

Levam tudo, levam tudo
agasalhado em seus braos

Campo imenso  com o meu vulto...

E ao longe cantam os pssaros.

RIMANCE

ONDE  que di na minha vida,
para que eu me sinta to mal?
quem foi que me deixou ferida
de ferimento to mortal?

Eu parei diante da paisagem:
e levava uma flor na mo.
Eu parei diante da paisagem
procurando um nome de imagem
para dar  minha cano.

Nunca existiu sonho to puro
como o da minha timidez.
Nunca existiu sonho to puro,
nem tambm destino to duro
como o que para mim se fez.

Estou cada num vale aberto,
entre serras que no teem fim.
Estou cada num vale aberto:
nunca ningum passar perto,
nem ter notcias de mim.

Eu sinto que no tarda a morte,
e s h por mim esta flor:
eu sinto que no tarda a morte
e no sei com  que suporte
tanta solido sem pavor.

E sofro mais ouvindo um rio
que ao longe canta pelo cho,
que deve ser lmpido e frio,
mas sem d nem recordao,
como a voz cujo murmrio
morrer com o meu corao.

RENNCIA

RAMA das minhas rvores mais altas,
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprend-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrla.

Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espao,
ritmo, desenho, msica absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta...

Falo-te, por saber o que  perder-se.
Conheo o corao da primavera,
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.

Vert para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...
Era a flor dos instantes mais amargos.

PAUSA

AGORA  como depois de um entrro.
Deixa-me neste leito, do tamanho do meu corpo,
junto  parde lisa, de onde brota um sono vazio.

A noite desmancha o pobre jgo das variedades.
Pousa a linha do horizonte entre as minhas pestanas,
e mergulha silncio na ltima veia da esperana.

Deixa tocar sse grilo invisvel
 mercrio tremendo na palma da sombra 
deixa-o tocar a sua msica, suficiente
para cortar todo arabesco da memria...

VINHO

A TAA foi brilhante e rara,
mas o vinho de que beb
com os meus olhos postos em ti,
era de total amargura.

Desde essa hora antiga e preclara,
insensvelmente desc,
e em meu pensamento sent
o desgsto de ser criatura.

Eu sou de essncia etrea e clara:
no entanto, desde que te v,
como que desapareci...
Rondo triste,  minha procura.

A taa foi brilhante e rara:
mas, com certeza enlouquec.
E dsse vinho que beb
se originou minha loucura.

VALSA

FEZ TANTO luar que eu pensei nos teus olhos antigos
e nas tuas antigas palavras.
O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemos
que tormei a viver contigo enquanto o vento passava.

Houve uma noite que cintilou sbre o teu rosto
e modelou tua voz entre as algas.
Eu moro, desde ento, nas pedras frias que o cu protege
e estudo apenas o ar e as guas.

Coitado de quem ps sua esperana
nas praias fra do mundo...
 Os ares fogem, viram-se as guas,
mesmo as pedras, com o tempo, mudam.

GRILO

MQUINA de ouro a rodar na sombra,
serra de cristal a serrar estrlas...

Caem pedaos de sono, entre os silncios,
em grandes flores, mornas e dceis,
com o pso e a cr de vagas borboletas.

Rostos de espuma, nomes de cinza,
 a vida sobe nos caules da noite, pouco a pouco.

Mquina de ouro tremendo no ar de vidro frio,
cortando o brto das palavras rente  bca...

Demanchando nos dedos arquitecturas que iam parando,
e livros de imagens que o vento compunha, ilgicamente.

Ah! que  dos ramos de estrlas finamente desprendidas,
pela sonora lmina que ests vibrando sempre, sempre?

Que  das noites extensas, de ares mansos de alegrias,
sem ruas, sem habitantes, sem solido, sem pensamento?

Que  das mos esperando o amanhecer definitivo
e cadas tambm na torrente do tempo?

DESCRIO

H UMA gua clara que cai sbre pedras escuras
e que, s pelo som, deixa ver como  fria.

H uma noite por onde passam grandes estrlas puras.
H um pensamento esperando que se forme uma alegria.

H um gesto acorrentado e uma voz sem coragem,
e um amor que no sabe onde  que anda o seu dia.

E a gua cai, refletindo estrlas, cu, folhagem...
Cai para sempre!

E duas mos nela mergulham com tristeza,
deixando um esplendor sbre a sua passagem.

(Porque existe um esplendor e uma intil beleza
nessas mos que desenham dentro da gua sua viagem
para fra da natureza,

onde no chegar nunca esta gua imprecisa,
que nasce e deslisa, que nasce e deslisa...)

EPIGRAMA N.o 6

NESTAS pedras cau, certa noite, uma lgrima.
O vento que a secou deve estar voando noutros pases,
o luar que a estremeceu tem olhos brancos de cegueira,
 esteve sbre ela, mas no viu seu esplendor.

S, com a morte do tempo, os pensamento que a choraram
vero, junto ao universo, como foram infelizes,
que, uma lgrima foi, naquela noite a vida inteira,
 tudo quanto era dar,  a tudo que era opr.

ATITUDE

MINHA esperana perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para cham-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O ltimo passo do destino
parar sem forma funesta,
e a noite oscilar como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estaro sbre esplhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.

E um campo de estrlas ir brotando
atrs das lembranas ardentes.

CORPO NO MAR

GUA DENSA do sonho, quem navega?
Contra as auroras, contra as baas:
barca imvel, estrla cega.

Bate o vento na vela e no a arqueia.
 No foi por mim!
Partiram-se as cordas, rodaram os mastros,
os remos entraram por dentro da areia...

Os remos torceram-se, e tranaram razes.
 Intil for-los  alastram-se, fogem
na sombra secreta de eternos pases...

Mudou-se a vela em nuvem clara!
Choraram meus olhos, minhas mos correram...
 Alto e longe!  No foi por mim...

E apenas pra
um corpo na barca vazia,
 merc das metamorfoses,
olhos vertendo melancolia...

O vento sopra no corao.

Adeus a todos os meridianos!
Deito-me como num caixo.

Ah! sobrevive o mar no meu ouvido...
Marinheiro! Marinheiro!

(Ilhas...Pssaros...Portos...  nsse rudo,
 O mar...O mar!...O mar inteiro!...)

Mas  tempo perdido!

LUAR

FACE do muro to plana,
com o sabugueiro florido.

O luar parece que abana
as ramagens na parede.

A noite tda  um zumbido
e um florir de vagalumes.

A bca morre de sde
junto  frescura dos galhos.

Andam nascendo os perfumes
na sda crespa dos cravos.

Brota o sono dos canteiros
como o cristal dos orvalhos.

DILOGO

MINHAS palavras so a metade de um dilogo obscuro
continuado atravs de sculos impossveis.

Agora compreendo o sentido e a ressonncia
que tambm trazes de to longe em tua voz.

Nossas perguntas e respostas se reconhecem
como os olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram.

Conversamos dos dois extremos da noite,
como de praias opostas. Mas com uma voz que no se importa...

E um mar de estrlas se balana entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.

ESTRLA

QUEM VIU aquele que se inclinou sbre palavras trmulas,
de relvo partido e de contrno perturbado,
querendo achar l dentro o rsto que dirige os sonhos,
para ver si era o seu que lhe tivessem arrancado?

Quem foi que o viu passar com sues ms insones,
buscando o polo que girava sempre no vento?
 Seus olhos iam nos ps, destruindo tdas as razes lricas,
e em suas mos sangrava o pensamento.

E era o seu rsto, sim, que estava entre versos andrginos,
prso em crculos de ar, sbre um instante de festa!
Bca fechada sob flores venenosas,
e uma estrla de cinza na testa.

Bem que le quis chamar pelo seu nome em voz muito alta,
 mas o desejo no foi alm do seu pescoo.
E ficou diante de sua cabea, estruturando-se
como o frio dentro de um po.

E no poude contar a ningum seu fim quimrico.
A ningum. Pois a lngua que fra sua estava morta,
e le era um prisioneiro entre paredes transparentes,
entre paredes transparentes, mas sem porta.

Disto le soube. O que nunca entendeu, porm, e o que lhe amarra
o corao com ardents cordas de desgsto
 aquela estrla de cinza  aquela estrla grande e plcida 
derramando sombra em seu rsto.

DESVENTURA

TU S como o rsto das rosas:
diferente em cada ptala.

Onde estava o teu perfume? Ningum soube.
Teu lbio sorriu para todos os ventos
e o mundo inteiro ficou feliz.

Eu, s eu, encontrei a gota de orvalho que te alimentava,
como um segrdo que cai do sonho.

Depois, abri as mos,  e perdeu-se.

Agora, creio que vou morrer.

NOTURNO

VOLTO a cabea para a montanha
e abandono os ps para o mar.
 Coitado de quem est szinho
e inventa sonhos com que sonhar!

Minhas tranas descem pela casa abaixo,
entram nas paredes, vo te procurar.
Envolvem teu corpo, beijam-te os ouvidos.
 Querido, querido, devias voltar.

Meus braos caminham pelas ruas quietas:
 caminho de rios, fluidez de luar... 
levam minhas mos por todo o seu corpo:
 Querido, querido, devias voltar.

Partem os meus olhos, parte a minha bca,
Na noite deserta, ningum v passar,
pedao a pedao, minha vida inteira,
nem na tua casa me escutam chegar.

Meu quarto vazio s pensa que durmo...

Coitado de quem est szinho
e assiste o seu prprio sonhar!

NOES

ENTRE MIM e mim, h vastides bastantes
para a navegao dos meus desejos afligidos.

Descem pela gua minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto  correnteza,
s recolho o gsto infinito das respostas que no se encontram.

Virei-me sbre a minha prpria existncia, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errncia por mares contraditrios,
e ste abandono para alm da felicidade e da beleza.

Oh! meu Deus, isto  a minha alma:
qualquer coisa que flutua sbre ste corpo efmero e precrio,
como o vento largo do oceano sbre a areia passiva e inmera...

EPIGRAMA N.o 7

A TUA RAA de aventura
quis ter a terra, o cu, o mar.

Na minha, h uma delcia obscura
em no querer, em no ganhar...

A tua raa quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.

A minha, no quer ir nem vir.
A minha raa quer passar.

REALEJO

MINHA vida bela,
Minha vida bela,
nada mais adianta
si no h janela
para a voz que canta...

Preparei um verso
com a melhor medida:
rsto do universo,
bca da minha vida.

Ah! mas nada adianta,
olhos de luar,
quando se planta
hera no mar,

nem quando se inventa
um colar sem fio,
ou se experimenta
abraar um rio...

Alucinao
da cabea tonta!

Tudo se desmonta
em cres e vento
e velocidade.
Tudo: corao,
olhos de luar,
noites de sadade.

Aprendi comigo.
Por isso, te digo,
minha vida bela,
nada mais adianta,
si no h janela
para a voz que canta...

FADIGA

ESTOU to cansada, to cansada,
estou to cansada! Que fiz eu?
Estive embalando, noite e dia,
um corao que no dormia
desde que o seu amor morreu.

Eu lhe dizia: Deixa a morte
levar teu amor! No faz mal.
 mais belo sse herosmo triste
de amar uma coisa que existe
s para morrer, afinal...

Deixa a morte... No chores... dorme!
Noite e dia eu cantava assim.
Mas o corao no falava:
chorava baixinho, chorava,
mesmo como dentro de mim.

Era um corao de incertezas,
feito para no ser feliz;
querendo sempre mais que a vida 
 sem termo, limite, medida,
com poucas vezes se quis.

O tempo era rspido e amargo.
Vinha um negro vento do mar.
Tudo gritava, noite e dia,
 e nunca ningum ouviria
aquele corao chorar.

Uma noite, dentro da sombra,
dentro do chro, a sua voz
disse uma coisa inesperada,
que logo correu, derramada
num silncio fino e veloz.

Meu amor no morreu: perdeu-se.
le existe. Eu no o quero mais.
O chro foi levando o resto.
Eu nem pude fazer um gesto,
e achei as horas desiguais.

E achei que o vento era mais forte,
que o frio causava aflio;
quis cantar, mas no foi preciso.
E o ar estava muito indeciso
para dar vida a uma cano.

A sorte virara no tempo
como um navio sbre o mar.
O chro parou pela treva.
E agora no sei quem me leva
daqui para qualquer lugar,

onde eu no escute mais nada,
onde eu no saiba de ningum,
onde deite a minha fadiga
e onde murmure uma cantiga
para ver si durmo, tambm.

HORSCOPO

DEVIAM ser Venus
e Jpiter, sim,
que ao menos, ao menos,
olhassem por mim,
gerando caminhos
claros e serenos
por onde passar
quem vinha nutrida
de secretos vinhos,

perdida, perdida,
de amor e pensar.

Saturno, porm,
Saturno, o sombrio,
se precipitou.

No sabe ningum
que rio, que rio
de luto circunda
a terra profunda
que piso e que sou;

que noite reveste
o mundo em que passo
e os mundos que penso...

Que longo, alto, imenso,
calado cipreste
sobe, ramo a ramo,
entre o meu abrao
e o abrao que amo!

RESSUREIO

NO CANTES, no cantes, porque veem de longe os nufragos,
veem os prsos, os tortos, os monges, os oradores, os suicidas.
Veem as portas, de novo, e o frio das pedras, das escadas,
e, numa roupa preta, aquelas duas mos antigas.

E uma vela de mvel chama fumosa. E os livros. E os escritos.
No cantes. A praa cheia torna-se escura e subterrnea.
E meu nome se escuta a si mesmo, triste e falso.

No cantes, no. Porque era a msica da tua
voz que se ouvia. Sou morta recente, ainda com lgrimas.

Algum cuspiu por distrao sobre as minhas pestanas.
Por isso vi que era to tarde.

E deixei nos meus ps ficar o sol e andarem mscas.
E dos meus dentes escorrer uma lenta saliva.
No cantes, pois trancei o meu cabelo, agora,
e estou diante do esplho, e sei melhor que ando fugida.

SERENATA

PERMITE que feche os meus olhos,
pois  muito longe e to tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudea:
que me conforme em ser szinha.
H uma doce luz no silncio
e a dr  de origem divina.

Permite que volte o meu rsto
para um cu maior que ste mundo,
e aprenda a ser docil no sonho
como as estrlas no seu rumo.

PRAIA

NUVEM, caravela branca
no ar azul do meio dia:
 quem te viu como eu te via?

Rolaram troves escuros
pela vertente dos montes.
Tremeram sbitas fontes.

Depois, ficou tudo triste
como o nome dos defuntos:
mar e cu morreram juntos.

Vinha o vento do mar alto
e levantava as areias,
sem vr como estavam cheias

de tanta coisa esquecida,
pisada por tantos passos,
quebrada em tantos pedaos!

Por onde ficou teu corpo,
 iluso de claridade 
quando se fez tempestade?

Nuvem, caravela branca,
nunca mais h meio dia?

(J nem sei como te via!)

SEREIA

LINDA  a mulher e o seu canto,
ambos guardados no luar.
Seus olhos doces de pranto
 quem os pode enxugar
devagarinho com a bca,
ai!
com a bca, devagarinho...

Na sua voz transparente
giram sonhos de cristal.
Nem ar nem onda corrente
passuem suspiro igual,
nem os bzios nem as violas,
ai!
nem as violas nem os bzios...

Tudo pudesse a beleza,
e, de encoberto pas,
viria algum, com certeza,
para faz-la feliz,
contemplando-lhe alma e corpo,
ai!
alma e corpo contemplando-lhe...

Mas o mundo est dormindo
em travesseiros de luar.
A mulher do canto lindo
ajuda o mundo a sonhar,
com o canto que a vai matando,
ai!
E morrer de cantar.

ENCONTRO

DESDE o tempo sem nmero em que as origens se elaboram,
se estendem para mim os teus braos eternos,
que um estaturio de caminhos invisveis
construiu com a cr e o frio e o som morto de mrmores,
para que em teu abrao haja imveis invernos.

Tu bem sabes que sou uma chama da terra,
que ardentes razes nutrem meu crescer sem termo;
adextrei-me com o vento, e a minha festa  a tempestade,
e a minha imagem, como jgo e pensamento,
abre em flor o silncio, para enfeitar alturas e rmo.

Os teus braos que veem com essa brancura incalculvel
que de to ser sem cr nem se compreende como existe,
 so os braos finais em que cedem os corpos,
e a alma cai sem mais nada, exausta de seu prprio nome,
com uma improvvel forma, um vo destino e um pso triste.

Pois eu, que sinto bem sses teus braos paralelos,
na atitude sem dr que  o rumo e o ritmo dessa viagem,
digo que no cairei com uma fadiga permitida,
que no apagarei ste desenho puro e ardente
com que, de fgo e sangue, foi traada a minha imagem.

Eu ficarei em ti, msera, intil, mas rebelde,
ltima estrla s, do campo infiel aos cus escassos.
E tu mesma achars pasmos de lagos e de areias,
diante da forma exgua, sustentada s de sonho
mantendo chama e flor no glo dos teus braos.

EPIGRAMA N.o 8

ENCOSTEI-ME a ti, sabendo bem que eras smente onda.
Sabendo bem que eras nvem, deps a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frgil,
fiquei sem poder chorar, quando ca.

CANTIGA

AI! A MANH primorosa
do pensamento...
Minha vida  uma pobre rosa
ao vento.

Passam arroios de cres
sbre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flres,
Imagem!

Vinde ver asas e ramos,
na luz sonora!
Ningum sabe para onde vamos
agora.

Os jardins tm vida e morte,
noite e dia...
Quem conhecesse a sua sorte,
morria.

E  nisto que se resume
o sofrimento:
cai a flor,  e deixa o perfume
no vento!

CAVALGADA

MEU SANGUE corre como um rio
num grande galope,
num ritmo bravio,
para onde acena a tua mo.

Pelas suas ondas revltas,
seguem desesperadamente
todas as minhas estrlas soltas,
com a mxima cintilao.

Ouve, no tumulto sombrio,
passar a torrente fantstica!
E, na luta da luz com as trevas,
todos os sonhos que me levas,
dize, ao menos, para onde vo!

MEDIDA DA SIGNIFICAO

I

PROCUREI-ME nesta gua da minha memria
que povoa tdas as distncias da vida
e onde, como nos campos, se podia semear, talvez,
tanta imagem capaz de ficar florindo...

Procurei minha forma entre os aspectos das ondas,
para sentir, na noite, o aroma da minha durao.

Compreendo que, da fronte aos ps, sou de ausncia absoluta:
desapareci como aquele  no entanto, rduo  ritmo
que, sbre fingidos caminhos,
sustentou a minha passagem desejosa.

Acabei-me como a luz fugitiva
que queimou sua prpria atitude
segundo a tendncia do meu pensamento transformvel.

Desde agora, saberei que sou sem rastros.
Esta gua da minha memria rene os sulcos feridos:
as sombras efmeras afogam-se na conjuno das ondas.

E aquilo que restaria eternamente
 to da cr destas guas,
 to do tamanho do tempo,
 to edificado de silncios
que, refletido aqui,
permanece inefvel.

II

Voz obstinada, por que insistes chamando
por um nome que no corresponde mais a mim?

No  do meu propsito que fiques ao longe szinha.
Nem tu sabes que espcie de sadade abrolha na noite
e como o silncio tenta mover-se intilmente,
quando diriges teus ms sonoros,
sondando direes!

No  do meu propsito,  voz obstinada,
mas da minha condio.

As aparncias dispersaram-se de mim,
como pssaros:
que sol se pode fixar nesta existncia,
para te definir a minha aproximao?

Minhas dimenses se aboliram nos limites visveis:
como podes saber onde me circunscrevo,
e de que modo me pode o teu desejo atingir?

Eu mesma deixei de entender a minha substncia;
tenho apenas o sentimento dos mistrios que em mim se equilibram.

Como podes chamar por mim como s coisas concretas,
e assegurar-me que sou tua Necessidade e teu Bem?

III

Pela experincia do teu contentamento,
crio formas que vistam meus pensamentos irrevelveis,
e modelo fisionomias com que te possa aparecer.

Pisarei minha solido com renncia e alegria
e, por entre caminhos assombrados,
resoluta virei at onde te encontres,
cortando as sombras que crescem como florestas.

Eu mesma me sentirei alucinada e exquisita,
com sse alento das nebulosas sinistras
que se desenvolvem nas febres.

No saberei precisamente quando me vers,
nem si compreenderei a linguagem que falas,
e os nomes que teem as tuas realidades
e o tempo dos outros acontecimentos...

Mas o que, desde agora, sinto e sei com firmeza
 que tua voz continuar chamando por mim, obstinada,
embora eu no possa estar mais perto nem mais viva,
e se tenha acabado o caminho que existe entre ns,
e eu no possa prosseguir mais...

IV

A gua da minha memria devora todos os reflexos.

Desfizeram-se, por isso, tdas as minhas presenas
e sempre se continuaro a desfazer.

 intil o meu esforo de conservar-me;
todos os dias sou meu completo desmoronamento:
e assisto  decadncia de tudo,
nestes espelhos sem reproduo.

Voz obstinada que ests ao longe chamando-me,
conduze-te a mim, para compreenderes minha ausncia.
Traze de longe os teus atributos de amargura e de sonho,
para veres o que dles resta
depois que chegarem a stes ermos domnios
onde figuras e horas se decompem.

No precisaremos falar mais nem sentir:
seremos s de afinidades: morrero as alegorias.

E sabers distinguir as coisas que perecem desoladas,
olhando para esta gua interminvel e muda,
que no floriu, que no palpitou, que no produziu,
de tanto ser puramente imortal...

GRILO

ESTRELINHA de lata,
assovio de vidro,
no escuro do quarto do menino doente.

A febre alarga
os pulsos hirtos;
mas dentro dos olhos ha um sol contente.

Pssaro de prata
sacudindo guisos
no sonho mgico do menino moribundo.

Gota amarga
dos olhos frios,
rolando, rolando no peito do mundo...

ACONTECIMENTO

AQUI estou, junto  tempestade,
chorando como uma criana
que viu que no eram verdade
o seu sonho e a sua esperana.

A chuva bate-me no rosto
e em meus cabelos sopra o vento.
Vo-se desfazendo em desgsto
as formas do meu pensamento.

Chorarei toda a noite, enquanto
perpassa o tumulto nos ares,
para no me veres em pranto,
nem saberes, nem perguntares:

Que foi feito do teu sorriso,
que era to claro e to perfeito?
E o meu pobre olhar indeciso
no te repetir: Que foi feito...?

EPIGRAMA N.o 9

O VENTO voa,
a noite tda se atordoa,
a flha cai.

Haver mesmo algum pensamento
sbre essa noite? sbre sse vento?
sbre essa flha que se vai?

PROVNCIA

CIDADEZINHA perdida
no inverno denso de bruma,
que  dos teus morros de sombra,
do teu mar de branda espuma,

das tuas rvores frias
subindo das ruas mortas?
Que  das palmas que bateram
na noite das tuas portas?

Pela janela baixinha,
viam-se os crios acsos,
e as flores se desfolhavam
perto dos soluos presos.

Pela curva dos caminhos,
cheirava a capim e a orvalho
e muito longe as harmnicas
riam, depois do trabalho.

Que  feito da tua praa,
ond a morena sorria
com tanta noite nos olhos
e, na bca, tanto dia?

Que  feito daquelas caras
escondendo o seu segrdo?
Dos corredores escuros
com paredes s de mdo?

Que  feito da minha vida
abandonada na tua,
do instante de pensamento
deixado nalguma rua?

Do perfume que me deste,
que nutriu minha existncia,
e hoje  um tempo de sadade,
sobre a minha prpria ausncia?

CANTAR

CANTAR de beira de rio;
gua que bate na pedra,
pedra que no d resposta.

Noite que vem por acaso,
trazendo nos lbios negros
o sonho de que se gosta.

Pensamento do caminho
pensando o rosto da flor
que pode vir, mas no vem.

Passam luas  muito longe,
estrlas  muito impossveis,
nuvem sem nada, tambm.

Cantar de beira de rio:
o mundo coube nos olhos,
todo cheio, mas vazio.

A gua subiu pelo campo,
mas o campo era to triste...
Ai!
Cantar de beira de rio.

DESTINO

PASTORA de nuvens, fui posta a servio
por uma campina to desamparada
que no principia nem tambm termina,
e onde nunca  noite e nunca madrugada.

(Pastores da terra, vs tendes sossgo,
que olhais para o sol e encontrais direo.
Sabeis quando  tarde, sabeis quando  cedo.
Eu, no.)

Pastora de nuvens, por muito que espere,
no h quem me explique meu vrio rebanho.
Perdida atrs dele na plancie area,
no sei si o conduzo, no sei si o acompanho.

(Pastores da terra, que saltais abismos,
nunca entendereis a minha condio.
Pensai que ha firmezas, pensais que ha limites.
Eu, no.)

Pastora de nunvens, cada luz colore
meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
os velos instveis das reses dispersas.

(Pastores da terra, de certeiros olhos,
como  to serena a vossa ocupao!
Tendes sempre o indcio da sombra que foge...
Eu, no.)

Pastora de nuvens, no paro nem durmo
neste mvel prado, sem noite e sem dia.
Estrlas e luas que jorram, deslumbram
o gado inconstante que se me extravia.

(Pastores da terra, debaixo das folhas
que entornam frescura num plcido cho,
sabeis onde pousam ternuras e sonos.
Eu, no.)

Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
do dona das reses, do dono do prado.
E s vezes parece que dizem meu nome,
que me andam seguindo, no sei por que lado.

(Pastores da terra, que vedes pessoas
sem serem apenas de imaginao,
podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, no.)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrs de formas com feitios falsos,
queimando viglias na plancie eterna
que gira debaixo dos meus ps descalos.

(Pastores da terra, tereis um salrio,
e andar por bailes vosso corao.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, no.)

QUADRAS

NA CANO que vai ficando
j no vai ficando nada:
 menos do que o perfume
de uma rosa desfolhada.

///

Os remos batem nas guas:
tm de ferir, para andar.
As guas vo consentindo 
sse  o destino do mar.

///

Passarinho ambicioso
fez nas nuvens o seu ninho.
Quando as nuvens forem chuva,
pobre de ti, passarinho.

///

O vento do ms de Agosto
leva as folhas pelo cho;
s no toca no teu rosto
que est no meu corao.

///

Os ramos passam de leve
na face da noite azul.
 assim que os ninhos aprendem
que a vida tem norte e sul.

///

A cantiga que eu cantava,
por ser cantada morreu.
Nunca hei de dizer o nome
daquilo que ha de ser meu.

///

Ao lado da minha casa
morre o sol e nasce o vento.
O vento me traz teu nome,
leva o sol meu pensamento.

NOTURNO

SUSPIRO do vento,
lgrima do mar,
ste tormento
ainda pode acabar?

De dia e de noite,
meu sonho combate:
veem sombras, vo sombras,
no h quem o mate!

Suspiro do vento,
lgrima do mar,
as armas que invento
so aromas no ar!

Mandai-me soldados
de estirpe mais forte,
com tdas as armas
que levam  morte!

Suspiro do vento,
lgrima do mar,
meu pensamento
no sabe matar!

Mandai-me sse arcanjo
de verde cavalo,
que desa a ste campo
a desbarat-lo!

Suspiro do vento,
lgrima do mar,
que leve sse arcanjo meu longo tormento,
e tambm a mim, para o acompanhar!

ORIGEM

O TEMPO gerou meu sonho na mesma roda de alfareiro
que modelou Sirius e a Estrla Polar.
A luz ainda no nasceu, e a forma ainda no est pronta:
mas a sorte do enigma j se sente respirar.

No h norte nem sul: e s os ventos sem nome
giram com o nascimento  para o fazerem mais veloz.
E a msica geral, que circula nas veias da sombra,
prepara o mistrio alado da sua voz.

Meu sonho quer apenas o tamanho da minha alma,
 exato, luminoso e simples como um anel.
De tudo quanto existe, cinge smente o que no morre,
porque o cu que o inventou cantava sempre eternidade
rodando a sua argila fiel.

FEITIARIA

NO TINHA havido pssaro nem flores
o ano inteiro.
Nem guerras, nem aulas, nem missas, nem viagens
e nem barca e nem marinheiro.

Nem indstria ou comrcio, nem jornal nem rdio,
o ano inteiro!
Nem cartas, nem modas. Tudo quanto havia
era o feitio de um feiticeiro
que toldava o mundo e a melancolia.

Chegaram agora pssaros e flores,
e de novo guerras, aulas, missas, viagens,
e marinheiros com remos e barcas
veem saindo l do horizonte.

Brotam de novo antigas imagens
das colees de fotografia...
 moos com roupas de Caronte
e meninas iguais s Parcas.

Por isso  que se tem sadade
do tempo da feitiaria.

MARCHA

AS ORDENS da madrugada
romperam por sbre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idea do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre ns dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de pases sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dvida aumento.

Tambm no pretendo nada
seno ir andando ata,
como um nmero que se arma
e em seguida se esbora,
 e car no mesmo poo
de inrcia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, guas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando  linda, amarga
como qualque fruto agreste.
Mesmo assim amarga,  tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha msica,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de sadade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.

Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
j me d contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxal seja bem cedo!
A esperana que falava
tem lbios brancos de mdo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento...
No h lgrima nem grito:
apenas consentimento.

EPIGRAMA N.o 10

A MINHA vida se resume,
desconhecida e transitria,
em contornar teu pensamento,

sem levar dessa trajectria
nem sse prmio de perfume
que as flres concedem ao vento.

ONDA

QUEM falou de primavera
sem ter visto o teu sorriso,
falou sem saber o que era.

..........................

Pus o meu lbio indeciso
na concha verde e espumosa
modelada ao vento liso:

tinha frescura de rosa,
aroma de viagem clara
e um som de prata gloriosa.

Mas desfez-se em coisa rara:
prolas de sal to finas
 nem a areia as igualara!

Tenho no meu lbio as runas
de arquiteturas de espuma
com paredes cristalinas...

Voltei aos campos de bruma,
onde as rvores perdidas
no prometem sombra alguma.

As coisas acontecidas,
mesmo longe, ficam perto
para sempre e em muits vidas:

mas quem falou do deserto
sem nunca ver os meus olhos...
 falou, mas no estava certo.

HERANA

EU VIM de infinitos caminhos,
e os meus olho choveram lcido pranto
pelo cho.

Quando  que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era to viva, to fecunda,
porque vinha de um corao?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que cau dos meus olhos passados,
que experincia, ou conslo, ou prmio alcanaro?

HISTRIA

EU FUI a de mos ardentes
que, triste de ser nascida,
fui subindo altas vertentes
para a vida.
E perguntava,  subida:
 mos, porque sois ardentes?

gua fina que descia,
flor em pedras debruada,
nada ouvia ou respondia...
Nada, nada.

E eu ia desenganada,
sorrindo, porque o sabia.

E, afinal, no cu, presentes
tdas as estrlas puras,
pouso as mesmas mos ardentes
nas alturas,
 sem perguntas, sem procuras,
ricas por indiferentes.

Mdo, orgulho, desencanto
prenderam os movimentos
dessas mos que, amando tanto,
sbre os ventos
desfizeram seus intentos,
vencendo um tcito pranto.

Ai! por mais que se ande,  certo:
 no se encontra o bem perfeito.
Vai nascendo s deserto
pelo peito.
E entre o desejado e o aceito
dorme um horizonte encoberto.

Como esta bca sem pedidos,
e esperanas to ausentes,
e esta nvoa nos ouvidos
complacentes,
  mos, porque sois ardentes? 

Tudo so sonhos dormidos
ou dormentes!

ASSOVIO

NINGUM abra a sua porta
para ver que aconteceu:
samos de brao dado,
a noite escura mais eu.

Ela no sabe o meu rumo,
eu no lhe pergunto o seu:
no posso perder mais nada,
si o que houve j se perdeu.

Vou pelo brao da noite,
levando tudo que  meu:
 a dr que os homens me deram,
e a cano que Deus me deu.

PERSONAGEM

TEU NOME  qusi indiferente
e nem teu rsto j me inquieta.
A arte de amar  exatamente
a de ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o prprio amor que por ti sinto:
s a idea, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presena
 um deserto, entre variedades:
mas nsse deserto  que pensa
o olhar de tdas as sadades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silencioso, obscuro, disperso.

Tdas as mscaras da vida
se debruam para o meu rsto,
na alta noite desprotegida
em que experimento o meu gsto.

Todas as mos vindas ao mundo
desfalecem sbre o meu peito,
e escuto o suspiro profundo
de um horizonte insatisfeito.

Oh! que se apague a bca, o riso,
o olhar dsses vultos precrios,
pelo improvvel paraso
dos encontros imaginrios!

Que ningum e que nada exista,
de quanto a sombra em mim descansa:
 eu procuro o que no se avista,
dentre os fantasmas da esperana!

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu corao, tua existncia,
tudo  o espao evita e consome:
e eu s conheo a tua ausncia.

Eu s conheo o que no vejo.
E, nsse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho...

ESTIRPE

OS MENDIGOS maiores no dizem mais, nem fazem nada.
Sabem que  intil e exaustivo. Deixam-se estar. Deixam-se estar.
Deixam-se estar ao sol e  chuva, com o mesmo ar de completa coragem,
longe do corpo que fica em qualquer lugar.

Entreteem-se a estender a vida pelo pensamento.
Si algum falar, sua voz foge como um pssaro que cai.
E  de tal modo imprevista, desnecessria e surpreendente
que, para a ouvirem bem, talvez gemessem algum ai.

Oh! no gemiam, no... Os mendigos maiores so todos esticos.
Puseram sua misria junto aos jardins do mundo feliz,
mas no querem que, do outro lado, tenham notcia da estranha sorte
que anda por les como um rio num pas.

Os mendigos maiores vivem fra da vida: fizeram-se excludos.
Abriram sonos e silncios e espaos nus, em redor de si.
Teem seu reino vazio, de altas estrlas que no cobiam.
Seu olhar no olha mais, e sua bca no chama nem ri.

E seu corpo no sofre nem gosa. E sua mo no toma nem pede.
E seu corao  uma coisa que, si existiu, j se esqueceu.
Ah! os mendigos maiores so um povo que se vai convertendo em pedra.
sse povo  que  o meu.

TENTATIVA

ANDEI pelo mundo no meio dos homens:
uns compravam joias, uns compravam po.
No houve mercado nem mercadoria
que seduzisse a minha vaga mo.

Calado, Calado, me diga, Calado
por onde se encontra minha seduo.

Alguns, sorririam, muitos, soluaram,
uns, porque tiveram, outros, porque no.
Calado, Calado, eu, que no quis nada,
porque ando com pena no meu corao?

Se no vou ser santa, Calado, Calado,
os sonhos de todos porque no me do?

Calado, Calado, perderam meus dias?
ou gastei-os todos, s por distrao?
No sou dos que levam: sou coisa levada...
E nem sei daqueles que me levaro...

Calado, me diga si devo ir-me embora,
para que outro mundo e em que embarcao!

CANTIGA

BENTEV que ests cantando
nos ramos da madrugada,
por muito que tenhas visto,
juro que no viste nada.

No viste as ondas que vinham
to desmanchadas na areia,
qusi vida, qusi morte,
qusi corpo de sereia...

E as nuvens que vo andando
com marcha e atitude de homem,
com a mesma atitude e marcha
tanto chegam como somem.

No viste as letras, que apostam
formar idas com o vento...
E as mos da noite quebrando
os talos do pensamento.

Passarinho, tolo, tolo,
de olhinhos arregalados...
Bentev, que nunca viste
como os meus olhos fechados...

EPIGRAMA N.o 11

A VENTANIA misteriosa
passou na rvore cr de rosa
e sacudiu-a como um vu,
um largo vu, na sua mo.

Foram-se os pssaros para o cu.
Mas as flres ficaram no cho.

PASSEIO

QUEM ME leva adormecida
por dentro do campo fresco,
quando as estrlas e os grilos
palpitam ao mesmo tempo?

O cu dorme na montanha,
o mar flutua em si mesmo,
o tempo que vai passando
filtra a sombra nas areias.

Quem me leva adormecida
sbre o perfume das plantas,
quando, no fundos rios
a gua  nova a cada instante?

No ha palavras nem rostos:
eu mesma no me estou vendo.
Algum me tirou do corpo,
fez-me nome, nicamente,

nome, para que as perguntas
me chamem, com vozes tristes,
e eu no me esquea de tudo
si houver um dia seguinte.

O cu roda para oste:
as pontes vo para as guas.
O vento  um silncio inquieto
com perspectivas de barcos.

Quem me leva adormecida
pelas dunas, pelas nuvens,
com ste som inesquecvel
do pensamento no escuro?

CANTIGA

NS SOMOS como o perfume
da flor que no tinha vindo:
esperana do silncio,
quando o mundo est dormindo.

Pareceu que houve o perfume...
E a flor, sem vir, se acabou.
Oh! abelha imaginativa!
o que o desejo inventou...

A MENINA ENFRMA

I

A MENINA enfrma tem no seu quarto formas inmeras
que inventam espantos para seus olhos sem iluso.

Bonecos que enchem as grandes horas de pesadelos,
que lhe roubam os olhos, que lhe partem a garganta,
que arrebatam tesouros da sua mo.

Um dia, ela descobriu szinha que era duas!
a que sofre depressa, no ritmo intenso e atroz da noite
e a que olha o sofrimento do alto do sono, do alto de tudo,
balanada num cu de estrlas invisveis,

sem contato nenhum com o cho.

II

A mo da menina enfrma refratou-se tambm na gua pura,
como, outras vezes, sua voz, nesses rios do cu.

Partiu-se a mo contemplativa dentro d'gua:
mas no houve mesmo amargura, mas qusi delcia,
no seu pulso quebrado e exato.

E ela contempla a onda mansa:
e tudo isso  uma simples lembrana?
 uma alheia notcia?
ou algum velho retrato?

III

A menina enfrma passeia no jardim brilhante,
de plantas hmidas, de flores frescas, de gua cantante,
com pssaros sbre a folhagem.

A menina enfrma apanha o sol nas mos magrinhas:
seus olhos longos teem um desenho de andorinhas
num rosto sereno de imagem.

A menina enfrma chegou perto do dia to mansa
e to simples como uma lgrima sbre a esperana.
E acaba de descobrir que as nuvens tambm teem movimento.

Olha-as como de muito mais longe. E com um sorriso de sadade
pe nesses barcos brancos seus sentimentos de eternidade
e parte pelo claro vento.

DESENHO

FINO CORPO, que passeias
na minha imaginao
como o vento nas areias,

sers o rei Salomo?

H um perfume de madeira
e uma confusa noo
de leo e nardo, a noite inteira,

na minha imaginao.

Estendem-se no meu leito
prpura e marfins...Esto
safiras pelo meu peito,

cedros pela minha mo...

Trres, piscinas, palmeiras,
de pura imaginao,
parecem to verdadeiras...

Sers o rei Salomo?

Ondas de mel e de leite
se derramam pelo cho,
no silencioso deleite

da sombra e da solido.

Navega nas minhas veias,
em vagorosa inveno,
um vinho de luas-cheias 

Por isso, em meu corpo vo
brotando, em mornos canteiros,
incenso, mirra, e a cano

de uns pssaros prisioneiros...

Sers o rei Salomo?

Na noite qusi perfeita
da minha imaginao,
que  da tua mo direita?...

TIMIDEZ

BASTA-ME um pequeno gesto
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

 mas s sse eu no farei.

Uma palavra cada
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

palavra que no direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

 que amargamente inventei.

E, enquanto no me descobres,
os mundos vo navegando
nos ares certos do tempo,
at no se sabe quando...

 e um dia me acabarei.

TAVERNA

BEM SEI que, olhando p'ra minha cara,
p'ra minha bca, triste e incoerente,
p'ros gestos vagos de sombra incerta
que hoje sou eu,
minha loucura se faz to clara,
minha desgraa to evidente,
minha alma tda to descoberta,
que pensam: ste, no bebeu...

Passei a noite, passei o dia
de cotovelos firmes na mesa,
de olhos sobre o vinho perdidos,
a testa pulsando na mo:
e muros de melancolia
subiam pela sala acsa,
inutilizando os gemidos,
mas quebrando-me o corao.

Deixei o copo no mesmo nvel:
bebida imvel, esplho atento,
onde  s eu  vi desbrochares,
rsto amargo de amor!
Vim da taverna brio de impossvel,
pisando sonhos, beijando o vento,
falando s pedras, agarrando os ares...
 Oh! deixem-me ir para onde eu fr!...

PERGUNTA

ESTES MEUS tristes pensamentos
vieram de estrlas desfolhadas
pela bca brusca dos ventos?

Nasceram das encruzilhadas,
onde os espritos defuntos
pem no presente horas passadas?

Originaram-se de assuntos
pelo raciocnio dispersos,
e depois na sadade juntos?

Subiram de mundos submersos
em mares, tmulos ou almas,
em msica, em mrmore, em versos?

Cariam das noites calmas,
dos caminhos dos luares lisos,
em que o sono abre mansas palmas?

Proveem de fatos indecisos,
acontecidos entre brumas,
na era de extintos parasos?

Ou de algum cenrio de espumas,
onde as almas deslisam frias,
sem aspiraes mais nenhumas?

Ou de ardentes e inteis dias,
com figuras alucinadas
por desejos e covardias?

Foram as esttuas paradas
em roda da gua do jardim...?
Foram as luzes apagadas?

Ou sero feitos s de mim,
estes meus tristes pensamentos
que boiam como peixes lentos

num rio de tdio sem fim?

EPIGRAMA N.o 12

A ENGRENAGEM trincou pobre e pequeno inseto.
E a hora certa bateu, grande e exata, em seguida.

Mas o toque daquele alto e imenso relgio
dependia daquela exgua e obscura vida?

Ou percebeu siquer, enquanto o som vibrava,
que ela ficava ali, calada mas partida?

VENTO

PASSARAM os ventos de Agosto, levando tudo.
As rvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no cho.
Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:
os ninhos que os homens no viram nos galhos,
e uma esperana que ningum viu, num corao.

Passaram os ventos de Agosto, terrveis, por dentro da noite.
Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.
Mas, sbre a paisagem cansada da aventura excessiva 
sem forma e sem co,
o sol encontrou as crianas procurando outra vez o vento
para soltarem papagaios de papel.

MISRIA

HOJE  tarde para os desejos,
e nem me interessa mais nada...
Cheguei muito depois do tempo
em que se pode ouvir dizer: Oh! minha amada...

O mar imvel dos teus olhos
pode estar bem perto, e defronte.
Mas nem navega as horas
nem se cuida mais de horizonte.

Durmo com a noite nos meus braos,
sofrendo pelo mundo inteiro.
O suspiro que em mim resvala
bem pode ser, a cada instante, o derradeiro.

Morrer  uma coisa to fcil
que tdas as manhs me admiro
de ter o sono conservado
fidelidade ao meu suspiro.

E pergunto: Quem  que manda
mais do que eu sbre a minha vida?
Nste mar de s desencanto,
que sereia murmura uma cano desconhecida?

E em meus ouvidos indiferentes,
alheios a qualquer vontade,
que rstos vo reconhecendo
os passeios da eternidade?

Perto do meu corpo estendido,
nufrago inerte de sombras e ares,
quem chegar, desmanchando secretos nveis?
Sers tu?  para me levares...

(Vejo a lgrima que escorre
por cima da minha pena.
Ai! a pergunta  sempre enorme,
e a resposta, to pequena...)

METAMORFOSE

SUBITO pssaro
dentro dos muros
cado,

plido barco
na onda serena
chegado.

Noite sem braos!
Clido sangue
corrido.

E imensamente
o navegante
mudado.

Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.

Seu lbio leva
um outro nome
mandado.

Sbito pssaro
por altas nuvens
bebido.

Plido barco
nas flores quietas
quebrado.

Nunca, jmais
e para sempre
perdido
o co do corpo
no prprio vento
pregado.

DESPEDIDA

VAIS FICANDO longe de mim
como o sono, nas alvoradas;
mas h estrlas sobressaltadas
resplandecendo alm do fim.

Bebo essas luzes sem tristeza,
porque sinto bem que elas so
o ltimo vinho e o ltimo po
de uma definitiva mesa.

E olho par a fuga do mar,
e para a asceno das montanhas,
e vejo como te acompanhas,
 para me desacompanhar.

As luzes do amanhecimento
acharo tda a terra igual.
 Tudo foi sobrenatural,
sem pso de contentamento,

sem noes do mal nem do bem,
 jgo de pura geometria,
que eu pensei que se jogaria,
mas no se joga com ningum.

EPIGRAMA N.o 13

PASSARAM os reis coroados de ouro,
e os heris coroados de louro:
passaram por stes caminhos.

Depois, vieram os santos e os bardos.
Os santos, cobertos de espinhos.
Os poetas, cingidos de cardos.

NDICE

Aceitao
[40]
Acontecimento
[129]
Alva
[58]
A menina enfrma
[172]
Anunciao
[14]
Assovio
[158]
Atitude
[89]
A ltima cantiga
[28]
Campo
[74]
Cano
[32]
Cano
[36]
Cano
[43]
Cantar
[135]
Cantiga
[119]
Cantiga
[166]
Cantiga
[171]
Cantiguinha
[60]
Cavalgada
[121]
Convenincia
[31]
Corpo no mar
[90]
Criana
[49]
Desamparo
[51]
Descrio
[86]
Desenho
[175]
Despedida
[192]
Destino
[137]
Desventura
[96]
Dilogo
[33]
Discurso
[16]
Distncia
[72]
Encontro
[116]
Epigrama n.o 1
[9]
Epigrama n.o 2
[25]
Epigrama n.o 3
[41]
Epigrama n.o 4
[56]
Epigrama n.o 5
[73]
Epigrama n.o 6
[88]
Epigrama n.o 7
[101]
Epigrama n.o 8
[118]
Epigrama n.o 9
[131]
Epigrama n.o 10
[151]
Epigrama n.o 11
[168]
Epigrama n.o 12
[185]
Epigrama n.o 13
[194]
Estirpe
[162]
Estrla
[94]
Excurso
[18]
xtase
[66]
Fadiga
[104]
Feitiaria
[146]
Fim
[47]
Fio
[52]
Gargalhada
[45]
Grilo
[84]
Grilo
[128]
Guitarra
[70]
Herana
[154]
Histria
[155]
Horscopo
[107]
Inverno
[53]
Luar
[92]
Marcha
[148]
Medida da significao
[122]
Metamorfose
[190]
Misria
[187]
Motivo
[10]
Murmrio
[42]
Msica
[22]
Noes
[99]
Noite
[12]
Noturno
[97]
Noturno II
[143]
Onda
[152]
Ofandade
[57]
Origem
[145]
Passeio
[169]
Pausa
[80]
Pergunta
[182]
Personagem
[159]
Perspectiva
[34]
Praia
[112]
Provncia
[132]
Quadras
[141]
Realejo
[102]
Renncia
[78]
Ressureio
[109]
Retrato
[21]
Rimance
[76]
Sereia
[114]
Serenata
[26]
Serenata
[111]
Solido
[38]
Som
[68]
Taverna
[180]
Tentativa
[164]
Terra
[62]
Timidez
[178]
Valsa
[82]
Vento
[186]
Vinho
[81]

Reproduo da ficha catalogrfica preparada em 1942 pelo Coronel Zacarias Silva. Os textos entre colchetes foram acrscimos manuscritos pela Autora  N.E.

============

CECILIA MEIRELES [GRILLO]

literariamente CECILIA MEIRELES
Usa os pseudonimos: [Florncia  C. M.  C.]

BIOGRAFIA:

Nasceu no Distrito Federal.
 filha de [Carlos Alberto de Carvalho M.] e de d. [Mathilde Benevides Meireles]
Esprito de slida cultura, Cecilia Meireles  poetisa, prosadora, pedagogista, professora e conferencista (notadamente sobre educao, arte e literatura)

ANOTAES interessantes:

1o livro publicado: NUNCA MAIS E POESIA DOS POEMAS, versos, em 1923, no Rio de Janeiro.
1o Premio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, em 1938, com seu livro VIAGEM.

BIBLIOGRAFIA:

A  POESIAS:

Nunca mais e Poema dos Poemas
Baladas para El-Rei
Viagem
Vaga Musica

B  NOVELA:

Olhinhos de Gato [ publicada na Rev. "Ocidente" de Lisboa.]

C  LITERATURA INFANTIL:

Crianca, meu amr, [livros de textos]

E mais:

O Espirito Vitorioso, [tese de Concurso  Cadeira de Literatura da antiga Escola Normal do Distrito Federal ]

So Paulo 10/VIII/1942

Zacarias Silva (assinatura)

[Lit. infantil
 Rute e Alberto resolveram ser turistas]

----FICHA PROVISORIA
MODIFICADA E AMPLIADA PELA AUTORA----

[Conferncias realizadas e editadas em Lisboa e Coimbra:
 Notcia da literatura brasileira (Coimbra)
 Batuque, samba e macumba (Lisboa)]

detalhe

Verso para eBook
eBooksBrasil.com

__________________
Dezembro 2000

O status de copyright, como domnio pblico, refere-se  presente edio, feita em fair use, por seu valor educacional, documental e histrico, aps verificar
que a obra de Ceclia Meireles est disponvel em edies em papel por diversas editoras. Caso o leitor tenha notcia de que algum direito patrimonial
esteja sendo involuntariamente violado, favor informar a eBooksBrasil, enviando email para livros@ebooksbrasil.com, para que este ttulo seja imediatamente
removido do acesso pblico.

Vedado qualquer uso comercial
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